O Eixo Intestino-Cérebro: Como a Alimentação Pode Transformar Sua Saúde Mental
RELAÇÃO ENTRE O INTESTINO E O CÉREBRO
Você sabe que a alimentação é essencial para a nossa saúde física e longevidade, mas sabia que se alimentar bem também é fundamental para a nossa saúde mental? Existe um sistema dentro do nosso corpo que vem ganhando cada vez mais visibilidade: o eixo intestino-cérebro. Esse eixo refere-se a um canal de comunicação de mão dupla entre o trato gastrointestinal e o sistema nervoso central, que inclui o cérebro. Essa comunicação ocorre por meio de vias neurais, hormonais e fisiológicas.
Para exemplificar as funções dessa conexão, pense nas vezes em que você sentiu dor de barriga quando estava nervoso ou estressado, ou naquele “friozinho na barriga” ao se apaixonar. Além dessas formas fáceis de identificar o funcionamento do eixo, existem diversos mecanismos ocultos que só conseguimos perceber a partir de estudos.
Uma pesquisa realizada no Centro Universitário de Campo Real, intitulada “Eixo intestino-cérebro: relação entre a microbiota intestinal e desordens mentais”, buscou responder à pergunta: “Como a saúde intestinal pode afetar o cérebro e seu funcionamento?”. O estudo apontou que os desequilíbrios neurobiológicos (como a queda na produção de serotonina) que ocorrem na depressão podem ser causados também por uma disbiose intestinal, modulada pela microbiota intestinal.
A MICROBIOTA INTESTINAL
A microbiota intestinal, de acordo com a Enterogermina, é o conjunto de micro-organismos que habitam nosso intestino, desempenhando diversas funções na modulação do nosso corpo. Ela atua na absorção de nutrientes e medicamentos, além de destruir substâncias agressivas, funcionando como um órgão extra em nosso corpo.
Diversos estudos já mostraram que o perfil desses micro-organismos que habitam nossa “flora intestinal” pode estar relacionado ao risco de desenvolver diversas doenças, como doenças cardiovasculares, diabetes, obesidade e infecções. Portanto, é importante afirmar que cuidar da microbiota é essencial para que ela continue a nos beneficiar, ressaltando a importância do autocuidado com a alimentação, exercício físico, sono e, surpreendentemente, com a nossa saúde mental.
MICROBIOTA E SUA RELAÇÃO COM A EMOÇÃO
De acordo com uma pesquisa realizada por Dinan, Stanton & Cryan (2013) e Kelly et al., é bem estabelecido o papel da microbiota sobre o comportamento e as emoções,
visto que ela sintetiza grande parte dos neurotransmissores e pode reduzir quadros de inflamação de baixo grau, associados à depressão e ansiedade. Além disso, a microbiota atua na regulação de outro eixo bem conhecido, o eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal (HPA), causando sua hiperativação quando desequilibrada. O HPA é um sistema importantíssimo que regula, principalmente, a resposta do corpo ao estresse, entre outras funções essenciais.
Diante disso, Lach et al. (2017), Gareau et al. (2011) e Schmidt et al. (2015) afirmam que os probióticos, microrganismos vivos que servem como suplemento para a regulação da microbiota, são ótimos aliados na diminuição de sintomas de ansiedade, depressão e, principalmente, estresse, visto que esses suplementos também ajudam na regulação do hormônio cortisol, conhecido como “hormônio do estresse”.
Além dos transtornos de ansiedade, depressão e estresse, outro transtorno muito conhecido que é alterado pela microbiota é o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Uma pesquisa recente, realizada em 2025 pela Neuroscience, mostrou que alterações microbianas podem afetar o funcionamento neuroquímico cerebral no TDAH, interferindo em níveis de neurotransmissores importantes, além de influenciar a produção ou modulação de precursores desses neurotransmissores.
Sobre o uso de probióticos para a melhoria das alterações microbianas no TDAH, um estudo realizado por Anna Partty e outros autores indica que a introdução precoce de probióticos pode contribuir para a prevenção de alterações no neurodesenvolvimento, possivelmente por atuar na estabilização da microbiota durante períodos críticos do desenvolvimento infantil.
ALIMENTAÇÃO E EMOÇÃO
Diante de todos esses estudos, fica evidente que a alimentação impacta todas as nossas formas de saúde, desde a fisiológica até a mental. Um estudo publicado na revista Nutrients investigou como uma alimentação saudável poderia influenciar o bem-estar emocional dos alunos universitários. Os dados desse estudo garantiram que uma boa alimentação está associada à melhora dos sintomas de transtornos mentais, podendo até melhorar o desempenho acadêmico desses jovens. Por outro lado, uma alimentação desequilibrada agrava seriamente as condições de saúde.
Para manter um bom funcionamento da microbiota intestinal, a Clínica Paulo Casali recomenda o consumo de alimentos ricos em fibras, como frutas, vegetais e grãos integrais (como aveia e quinoa), além de alimentos fermentados, como iogurte e kefir. Leguminosas, como feijão e ervilha, e oleaginosas, como nozes e sementes, também são essenciais. Alimentos prebióticos, como alho, cebola, aspargos e banana verde, devem ser incluídos na dieta, assim como chás verdes e kombucha.
PSICOLOGIA E SEUS EFEITOS NO EIXO INTESTINO-CÉREBRO
Pensando além da alimentação, será que existe mais algum aliado do eixo intestino-cérebro? De acordo com o Dr. Bruno Werneck, a terapia pode ser um forte aliado para
pacientes com doenças intestinais, como a síndrome do intestino irritável (SII). Existe um ciclo vicioso: pacientes com problemas intestinais podem desenvolver transtornos mentais, e o mesmo ocorre no caminho inverso, já que pacientes com transtornos mentais também são propensos a desenvolver crises intestinais.
Werneck afirma que, aparentemente, a psicoterapia em geral pode ser positiva para pacientes com a síndrome do intestino irritável, mas que as terapias cognitivo-comportamentais (TCC) trazem resultados mais significativos para esse grupo populacional. Uma revisão realizada por José Hipólito e Everson Santos, com o objetivo de mostrar a eficácia da TCC em pacientes com SII, afirmou que esses pacientes obtiveram uma melhora significativa nos sintomas gastrointestinais, redução de ansiedade e depressão, além do aumento da qualidade de vida e outros benefícios.
Em suma, a relação entre o intestino e o cérebro é complexa e fundamental para a nossa saúde geral. A microbiota intestinal, com sua diversidade de micro-organismos, desempenha um papel vital na modulação do nosso bem-estar emocional e físico. Portanto, cuidar da saúde intestinal por meio de uma alimentação equilibrada e hábitos saudáveis é essencial para promover não apenas a saúde física, mas também a saúde mental.
Incentivo os leitores a refletirem sobre suas escolhas alimentares e a buscarem orientação profissional para otimizar sua saúde intestinal e mental. A conexão entre o que comemos e como nos sentimos é uma realidade que merece atenção e cuidado


