Como a febre do tralalero tralala pode corroer o cérebro Do seu filho
Se você é pai, avô ou convive com crianças, certamente já ouviu falar da febre do “tralalero tralala”, “crocodilo bombardino”, “capuccino assassino” e “tung tung sahur”. Todos esses nomes estranhos e sem sentido trazem consigo imagens ainda mais absurdas. Por exemplo, o tralalero tralala, o mais famoso de todos, é representado por uma imagem gerada por inteligência artificial de um tubarão com três pernas usando tênis. Esses “personagens” têm nomes criados com um sotaque italiano peculiar. Muitos tentam descobrir o significado por trás desses nomes inusitados, mas a verdade é que eles representam apenas coisas sem lógica, embora sejam animadas e divertidas.
Após a viralização de sua imagem, surgiram vídeos dos personagens dançando ou brigando entre si, e, posteriormente, até desenhos animados para crianças com esses temas. Um ótimo exemplo é o vídeo de humor infantil postado no canal HornstrompBR, intitulado "O que Aconteceu com o TRALALERO TRALALA! Brainrot Italiano Animação". Trata-se de um vídeo extremamente colorido, com praticamente nenhum silêncio entre as falas, que segue a mesma lógica de captação de atenção das crianças que o famoso “Cocomelon”.
O QUE É O “COCOMELON”?
O Cocomelon é um desenho animado traduzido para mais de 25 idiomas, que se tornou viral devido à sua capacidade de prender a atenção das crianças. Há vídeos na internet mostrando crianças tão absortas no desenho que parecem esquecer do mundo ao seu redor, sendo chamadas de “zumbis do Cocomelon”. Jerrica Sanes, especialista em televisão infantil, afirma que o Cocomelon é uma das piores animações que uma criança pode assistir. Para manter a atenção dos pequenos, o programa utiliza cores hipersaturadas (uma estratégia semelhante à usada em cassinos), abusa da repetição nas letras das músicas (como o famoso “Baby Shark”), e emprega cortes e movimentos rápidos, além de superestímulos.
O aspecto mais alarmante desse desenho é que seus criadores utilizam uma técnica chamada “distract room”, tratando as crianças como verdadeiras cobaias. Em um ambiente controlado, os criadores colocam crianças diante de duas telas: uma exibe cenas do cotidiano e a outra apresenta vídeos do Cocomelon. Eles registram todas as vezes que a criança desvia o olhar da animação para o mundo real, o que indica que precisam aumentar o estímulo ou adicionar algo que a faça voltar a olhar para a tela.
AS GRANDES CONSEQUÊNCIAS
O grande problema desses desenhos que utilizam técnicas hipnotizantes, como o Cocomelon e os criados por inteligência artificial, como o Tralalero Tralala, é que causam sérios prejuízos cognitivos para os pequenos. Uma pesquisa realizada em 2011 pela Academia Americana de Pediatria revelou que apenas 9 minutos de exposição a conteúdos animados com cenas excessivamente rápidas e estímulos frenéticos podem comprometer significativamente o desenvolvimento cognitivo de crianças em idade pré-escolar. Os estudos indicam que há prejuízos no desenvolvimento cognitivo, com crianças expostas a esse tipo de conteúdo apresentando desempenho inferior em tarefas que exigem planejamento e controle inibitório. Além disso, a constante mudança de cenas e o excesso de estímulos visuais dificultam o processamento cerebral adequado. A pesquisa também constatou impactos na capacidade de concentração, com uma redução no tempo de atenção sustentada durante atividades cotidianas, e as crianças mostraram maior dificuldade em manter o foco após a exposição prolongada. Outro prejuízo foi observado na autorregulação, com um aumento da impulsividade e uma diminuição da capacidade de autocontrole emocional, manifestando-se tanto em ambientes escolares quanto nas interações sociais.
Esses achados ressaltam a necessidade de uma avaliação mais aprofundada sobre os efeitos cumulativos desse tipo de entretenimento infantil na saúde mental e no desenvolvimento neurológico das crianças. O padrão de excitação constante gerado pelos estímulos audiovisuais intensos parece interferir nos processos naturais de aprendizagem e formação cognitiva.
Trazendo as pesquisas para o contexto brasileiro, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda evitar e até proibir que crianças com menos de 2 anos tenham acesso a telas, especialmente aquelas que apresentam conteúdos inadequados. Essa recomendação deve ser reforçada, especialmente durante as refeições e antes de dormir. A SBP sugere que, para crianças de 2 a 5 anos, o tempo de tela seja limitado a no máximo uma hora.
Além disso, a pesquisa TIC KIDS ONLINE – Brasil (2023), realizada pelo Cetic.br/NIC.br, com uma amostra representativa de 2.704 famílias e entrevistas com crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos, revelou que 95% estão conectados à internet, o que corresponde a 25,5 milhões de usuários. A variação de conectividade é de 97% a 100% nas regiões Sul e Sudeste, e de 89% a 92% nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O uso da internet ocorre principalmente por meio de telefones celulares (97%), seguido pela televisão (70%) e computadores (38%). Esses dados ressaltam a importância de monitorar e regular o acesso das crianças a conteúdos digitais.
O QUE SIGNIFICA “BRAIN ROT”?
Uma definição que tem se tornado viral entre jovens e adultos nas redes sociais é “brain rot”, que traduzido significa “apodrecimento do cérebro”. De acordo com um estudo realizado pela Dra. Susan R. Johnson, pediatra especializada em comportamento e desenvolvimento, a longo prazo, a falta de estímulos sensoriais adequados pode resultar em uma diminuição do volume cerebral. Seus estudos indicam que crianças que não recebem estímulos táteis e interações humanas significativas podem apresentar uma redução de 20 a 30% no tamanho do cérebro. Essa falta de estimulação equilibrada pode ter consequências graves para o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças.
Por outro lado, Johnson observa que a televisão, com sua natureza altamente estimulante, repleta de imagens vibrantes, fluorescentes e brilhantes, além de sons de baixa qualidade, pode sobrecarregar os órgãos sensoriais das crianças, resultando em interrupções no seu desenvolvimento e funcionamento.
A limitação do envolvimento a apenas dois sentidos, combinada com a superexposição auditiva e visual, não oferece as experiências sensoriais necessárias para aprimorar as conexões neurais e desenvolver habilidades cognitivas fundamentais. Portanto, embora os programas voltados para o público infantil possam ser uma forma prática de entretenimento, os efeitos negativos que podem ter sobre o cérebro em crescimento superam os benefícios que oferecem.
COMO RESOLVER?
A Sociedade Brasileira de Pediatria faz várias recomendações que, se seguidas, podem melhorar a qualidade de vida e o funcionamento cerebral do seu filho. É fundamental evitar que crianças usem celulares sem supervisão, limitar o uso de telas a pelo menos duas horas antes de dormir, oferecer alternativas de brincadeiras e atividades ao ar livre, estabelecer regras saudáveis para o uso ético de dispositivos digitais e, acima de tudo, conectar-se e dialogar com as crianças. Passar tempo de qualidade com elas é sempre mais produtivo e a melhor maneira de evitar a dependência das telas.
A neuropsicóloga Roselene Espírito Santo Wagner também sugere estratégias eficazes para combater o vício em celulares. Ela enfatiza que ensinar as crianças a lidar com o tédio é uma ferramenta valiosa nesse processo. Aprender a enfrentar a frustração pode ser tanto pedagógico quanto terapêutico. Wagner ressalta que estabelecer limites é uma forma de demonstrar amor e cabe aos pais explicar aos filhos os riscos de passar muito tempo na realidade virtual. A prevenção do vício deve ser baseada na psicoeducação, que envolve a criação de uma rotina saudável desde a infância. Os “nativos digitais”, que cresceram na era virtual, têm maior propensão a se tornarem “viciados em tecnologia”. Mesmo que as crianças ainda não consigam pronunciar todas as palavras corretamente, elas compreendem quase tudo ao seu redor. Portanto, é essencial acompanhá-las em todas as etapas de seu desenvolvimento, orientando, preparando e oferecendo amor.
Artigo: Carolina Araque


