Venezuela: Democracia Tutelada e a Complacência que Custa Caro

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Foto: Gerado por IA

A leitura apressada dos acontecimentos recentes na Venezuela como vitória democrática exige prudência. Na América Latina, libertações anunciadas com entusiasmo costumam ocultar rearranjos de poder, não rupturas genuínas.
A queda de Nicolás Maduro não foi súbita nem imprevisível. É o desfecho lógico de um processo prolongado de erosão institucional, econômica e moral, no qual a soberania venezuelana foi traçada. Isso ocorreu tanto por um regime autoritário interno quanto por alianças internacionais que trataram o país como ativo estratégico que, diga-se de passagem, não se sustentaria por muito tempo. Esqueceram da nação!
Do ponto de vista da legitimidade política e jurídica, a prisão de Maduro não pode ser analisada apenas sob a ótica da soberania formal. Maduro já não exercia o poder com base em mandato legítimo, fruto de eleições livres, competitivas e reconhecidas internacionalmente. A ruptura institucional, a manipulação sistemática do processo eleitoral, a supressão de poderes independentes e a repressão a opositores esvaziaram qualquer resquício de legalidade democrática. 
É nesse ponto que a responsabilidade brasileira precisa ser enfrentada sem narrativas esquivadoras da verdade. O governo Lula optou por uma complacência política consciente com o regime de Maduro. Sob o discurso da não intervenção e proteção da soberania, relativizou violações sistemáticas de direitos humanos e insistiu em reconhecer legitimidade onde já não havia instituições funcionais e formais. 
Essa postura não passou despercebida. Diplomatas brasileiros, inclusive em manifestações públicas, advertiram para o custo reputacional de alinhar o Brasil a uma ditadura desacreditada. A política externa presidencial ignorou alertas técnicos, trocando tradição diplomática por afinidade ideológica de um partido e não de uma nação.
O silêncio brasileiro não foi neutro; foi escolha. E escolhas têm consequências. Ao se omitir por anos, o Brasil perdeu autoridade moral e capacidade de influência no desfecho da crise. Quando os Estados Unidos intervieram diretamente, restou apenas espernear, sem protagonismo.
A tragédia venezuelana deixa uma lição dura para a região. Soberania não se perde apenas com tanques, mas também com silêncios cúmplices e diplomacias seletivas. E a democracia, quando relativizada por conveniência política, deixa de ser valor para se tornar discurso.
A atuação americana tampouco merece romantização. A transição democrática anunciada carrega interesses claros, sobretudo energéticos. O petróleo venezuelano segue no centro da disputa. A pergunta incômoda permanece: trata-se de libertação ou simples troca de gestores?
Para o Brasil, o episódio deve servir de autocrítica. Política externa não pode ser guiada por simpatias pessoais ou narrativas ideológicas. Quando a diplomacia abdica de princípios em nome de conveniências, perde relevância, liderança e respeito internacional, comprometendo inclusive interesses econômicos e estratégicos do próprio país e enfraquecendo sua capacidade de influenciar crises regionais futuras com credibilidade e responsabilidade histórica duradoura que sempre fizeram parte da história brasileira. Agora não mais!

 

Por: Álvaro Costa - Advogado, analista político e colunista

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Alvaro Costa

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